Não quero ser Holden Caulfield.
Recentemente li o livro de J. D. Salinger "O Apanhador no Campo de Centeio". Esse livro criou em mim um entorpecimento muito característico desse tipo de livro. Como qualquer "coming of age", Salinger retrata uma realidade jovem de transformação, contudo de forma nada explicativa ou genérica.
Essa história é sobre um jovem chamado Holden Caulfield, e é ele que não desejo ser. Numa breve introdução, Holden é um rapaz, que após ser expulso de seu colégio interno, passa a vagar sozinho pela cidade de Nova York, relatando suas vivências. Tudo é narrado de uma forma estranha, com um vocabulário sujo típico do menino fumante. Salinger retrata muito bem um protagonista nada confiável, cujas camadas de existência só podem ser compreendidas com um mergulhar completo em sua obra.
Porém, não quero fazer uma resenha desse livro: recomendo que você o leia e tire suas próprias conclusões. Quero falar aqui sobre como Holden Caulfield é tudo que não quero ser. Ao finalizar o livro, admito que me apeguei ao personagem. Ele é o típico adolescente americano nos anos 50: é rico, fuma, bebe, namora e, acima de tudo, pensa, reclama e reflete sobre a sociedade. De fato, um personagem muito interessante. O autor se propõe a mostrar um homem cujo testemunho não é confiável, a cuja visão de mundo é totalmente diferente de suas reais ações.
Caulfield é um rapaz confuso e deprimido, que acredita que todos ao seu redor são falsos ou hipócritas. Isso pode ser verdade em certos sentidos, como os atores e músicos que ele encontra. Mas na maioria das vezes ele se encontra questionando o comportamento de todos ao seu redor, independente de suas próprias atitudes.
Holden se coloca numa posição de juiz, onde todos são falsos, e ele é o homem capaz de discernir o verdadeiro de cada um. Nisso se esconde um dos mais terríveis traços da personalidade de Caulfield. Ele mesmo é o maior hipócrita da narrativa; afinal, ele diz diversas coisas, mas nunca as cumpre. Ele tem pensamentos firmes, mas nunca os põe em prática. Holden critica o que ele é, e isso me assusta.
Este adolescente é apenas um exemplo de um grupo real de seres humanos: os hipócritas. E não do tipo mau que normalmente nos vem a cabeça, mas sim aquele que é tão cheio de si mesmo, seja pelo ego ou pelos sentimentos, que se cega quanto as próprias ações. Ele não age ativamente pensando em ser falso, mas por sempre pensar no que os outros ao invés de si, se torna o que mais odeia.
Não posso negar que esse emblemático protagonista é um jovem, que além de imaturo é altamente traumatizado. Mas mesmo assim, me peguei pensado "quantas vezes será que eu agi da mesma forma?" Afinal, quantas vezes me pus em um pedestal, apenas para visualizar minha queda? Esse livro me mostrou que definitivamente não quero, e não serei falsa a ponto de enganar a mim mesma. Um livro sagrado me ensinou que o orgulho precede a queda, e não quero viver para ver isso acontecer comigo.
Não sei quanto a você querido leitor; como disse, indico a leitura desse livro, assim poderá ter sua própria interpretação da obra. Gostaria apenas que tivesse em mente: você prefere ser o apanhador no campo, que vê o perigo do abismo, ou a criança alegre que corre perto demais da borda?

Que excelente reflexão! Os melhores livros são aqueles que nos confrontam.
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